Florianópolis
Sérgio da Costa Ramos

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da Costa Ramos

Sérgio da Costa Ramos

Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

Pelo Bem

Por Sérgio da Costa Ramos

23/02/2018 - 09h46

Quando se imagina que os políticos do Brasil já fizeram de tudo um pouco na ordenha ao país, o presidente Temer troca a reforma da Previdência pela intervenção federal no Rio de Janeiro, travando qualquer emenda à Constituição. Não que o Rio não necessitasse de medidas excepcionais contra o verdadeiro “Estado paralelo” lá instalado. Mas nada que não pudesse ser implementado sem o apelo àquela arma constitucional, que tem o mau condão de suspender as necessárias reformas. Pior: já tem político do Rio torcendo contra. Haverá pior índole do que a do brasileiro que, numa guerra, torce contra o seu próprio país? Haverá maior trairagem do que torcer contra o empenho do Exército na guerra contra o narcotráfico que infelicita a nação? Pois é o que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, está fazendo. E por quê? Por causa de uma mesquinha disputa de poder. Seja qual for a pauta apresentada às votações da Câmara, Maia é contra. O que dizer de brasileiros contra o Brasil, só para derrotar o presidente de plantão? Que, aliás, tão logo termine o seu breve mandato terá que prestar contas à justiça, sem foro privilegiado. Espanta que nem o presidente do Executivo, nem o do Legislativo, aceitem fazer o seu trabalho, ainda que este pareça uma agenda de grande impopularidade. Quer dizer que só aceitam fazer o trabalho soft e não o que suscite críticas e ranger de dentes? *** A segurança pública se tornou um tema de grande aceitação eleitoral – e foi só por isso que o governo federal trocou uma agenda impopular, que é a necessária reforma previdenciária, por esta que representa uma unanimidade nacional: o clamor popular por mais segurança e respeito à vida humana. Tão corriqueira anda a batalha do tráfico no Rio que entre os internautas já se instalou um aplicativo com características de GPS dos tiroteios. De acordo com o aplicativo Onde tem tiroteio (OTT), a tela do celular localiza as cenas dos duelos urbanos entre o tráfico e a polícia, mapeando a “guerra” na região. Espanta – mas não surpreende – que políticos possam torcer contra o Bem e a favor do Mal, ainda que este Bem signifique um ato da baixa política de Michel Temer. A despeito desses oportunismos, torcer pelo Brasil é o mínimo que se espera de genuínos brasileiros. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Renovar ou morrer

Por Sérgio da Costa Ramos

22/02/2018 - 10h09

O que dizer do rol dos candidatos presidenciáveis? A lista constitui verdadeira caricatura da política brasileira, com seus Cacarecos e Frankensteins. Nem vamos falar dos nomes de sempre: Lula, Alckmin, Marina e Ciro Gomes, que podem comemorar "bodas de ouro" como pretendentes. A esses se juntam bizarrias e extravagâncias, como o corrupto reincidente Fernando Collor, o arruaceiro Guilherme Boulos e os risíveis Eymael e Levy Fidelix. Meu Deus! Em quem votar quando chegar a hora? Todo candidato se diz um santo. Deseja sinceramente enxugar o suor do operário, lenir a mão do agricultor, adubar o salário do professor, consolar os sem-terra e os sem-teto, mitigar a fome dos descamisados, distribuir leite, emprego, felicidade, cartão de crédito e estacionamento pra todo mundo. Não se conhece homem mais puro e mais bem-intencionado do que um candidato. Mas há um certo mecanismo que, num determinado momento, entre a eleição e a posse, transforma o bom candidato num Ali Babá, num Arséne Lupin, num comerciante de "emendas" do orçamento, num "administrador" das sobras de campanha, num garimpeiro de obras e sobras... Eleito, o sujeito começa a enxergar o erário como a permissiva bolsa de uma "viúva" indefesa. Sobrevive no país um singular conceito patrimonialista de que os "recursos públicos" pertencem ao vivente que "chegar primeiro". O dinheiro dos impostos seria um bem de propriedade difusa e incerta. "Se não é de uma pessoa, não é de ninguém", logo, "se eu pegar um pouquinho pra mim não será um mal tão irreparável assim". Há pretendentes que só se candidatam para amealhar malas ou apartamentos cheios de dinheiro. Afinal, que mal há em indicar uma pessoa de sua confiança para uma estatal? Sendo "estatal" é do povo... Sem uma reforma política que moralize o mandato parlamentar - uma eleição para deputado federal não pode custar R$ 2 milhões - e garanta a sua integridade, os “mensalões” e “petrolões” mudarão de nome, mas não de “hábito”. Não adianta reformar a Previdência e entregar estatais à sanha dos cleptomaníacos. Uma reforma que mantenha no cenário partidos que comprovarem “seriedade política e existência eleitoral” é a primeira penitência para este Brasil assolado pela corrupção. Ou o país se renova pelo voto ou é enterrado ainda na infância de sua democracia. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: Mentir é o de menos Mudanças que não mudam

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Mentir é o de menos

Por Sérgio da Costa Ramos

21/02/2018 - 10h55

De quantos candidatos ao governo você já ouviu falar sobre segurança pública em seu Estado? Qual deles já ofereceu um plano coerente e plausível para combater o Estado paralelo do tráfico que, aos poucos, mina e deteriora as famílias? Segurança é o tema número um no Brasil. E matéria de interesse municipal. Não raro, contudo, prefeitos e vereadores acham que o assunto pertence apenas às secretarias de Segurança dos Estados ou à Secretaria Nacional da Presidência – instituições que não têm nada a ver com a cidade. Agora que se consumou a primeira intervenção federal pós-Constituição de 88, todos os Estados vão querer transferir a sua responsabilidade. *** Parece que a “peta”, mãe de todos os vícios, já venceu as eleições no Brasil. Os candidatos já não dizem “eu não minto” ou “eu só digo a verdade” Preferem dizer "eu minto menos". Num país em que o verbo “roubar” ganhou semântica de coisa “comum”, “normal”, ou gradações meramente veniais, mentir é o pecado menor. No Rio (et pour cause), meia centena de candidatos estarão registrados, apesar de responderem a processos. Só falta o goleiro Bruno se candidatar – e requerer o direito de ser votado na cadeia. O que espanta, mesmo, não é a facilidade com que  facínoras se candidatam. Afinal, o Brasil criou uma jurisprudência de impunidade inédita no planeta. O tal “trânsito em julgado” - que ameaça voltar -, empurra qualquer punição para as “calendas” neste paraíso de recursos, embargos e despachos interlocutórios. O que espanta é o novelo legal que favorece a impunidade. As sentenças nunca chegam aos “finalmente” e ao “irrecorrível”. Um bandido pode recorrer a vida inteira – e, assim, candidatar-se até à Presidência. A Ficha Limpa é uma esperança, mas já começa a ser desconstruída pelo juridiquês insensato, que acaba zelando pela prevalência do recurso infinito sobre o ideal de justiça. Se o amigo persegue o candidato "ideal", arrisco um conselho: – Vote só em quem você conhece desde criancinha. Em eleições locais não aceite votar em desconhecidos. Gente que não tem a menor ideia da cidade em que vive ou da missão a qual deve se investir um verdadeiro candidato. – Na guerra, mentira como terra – diz o adágio bélico. E nas campanhas, mentiras como  balas perdidas... – poderia completar algum eleitor-sobrevivente, entre aqueles que testemunham tiroteios nas “guerras não-declaradas” das cidades médias do Brasil. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Mudanças que não mudam

Por Sérgio da Costa Ramos

20/02/2018 - 10h44

Nunca se viu país mais necessitado de mudanças. A reforma política, a tributária, a da Previdência. Mas, no Brasil, as mudanças não são feitas “para mudar”. Quando acontecem, elas servem apenas para camuflar a dura realidade. As lombadas em rodovias da Ilha, por exemplo. A exposição dos motoristas ao sol é ainda mais penosa por causa das lombadas, essa “corcova” que transforma o trânsito em “tartaruga” a caminho das praias. Tenho um amigo inglês que é excêntrico o suficiente para enfrentar o verdadeiro “rally da lombada”, tudo por conta de uma cachacinha do Ribeirão da Ilha. O homem troca, placidamente, um Johnnie Walker 12 anos por um brandy nativo, como se este fosse a quintessência dos néctares. Apresentado às nossas lombadas, o inglês associou esse nome àquela dança quase erótica que fez tanto sucesso no passado, a lambada – baseada num lascivo movimento dos quadris dos dançarinos, unidos e rebolantes. Tive que explicar: nada a ver. A dança era a “lambada”. O obstáculo é a “lombada”, corcova de camelo erguida bem no meio da rua. Uma cilada contra o motorista. Um atentado à civilização. Infelizmente necessária num país que ignora olimpicamente as leis do trânsito. O problema é que elas aparecem de repente no meio da rua, a tinta amarela de advertência já desbotada. Agora, quando o desavisado motorista as vê, o brutal solavanco é inevitável - coisa de “quinto mundo”. Esse tipo de obstáculo existiu na Inglaterra atacada por Adolf Hitler. As lombadas existiam dentro de quartéis militares ou na esquina do War Cabinet, em Westminster, onde Churchill queimava pestanas e charutos, pensando em como deter o cabo austríaco. O inglês não entende porque morrem tantos brasileiros nesta guerra do trânsito, apesar das lombadas. Não imagina que cada motorista dirige o seu tanque de guerra como se fosse um sargento da Panzer Divizionen, cumprindo a ordem de “atropelar o que lhe apareça pela frente”. *** Em tempos de paz, e segundo um debochado eufemismo ilhéu, lombadas são apenas “suaves redutores de velocidade em vias rápidas”, emboscadas que atendem pelo sugestivo apelido de “quebra-molas”. Eufemismo, aliás, é coisa bem brasileira, espécie de caridoso apelido que o Brasil empresta à sua dura realidade. ​Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos​ Veja também: Estado mamador ​Depende do nome​ ​Muda para não mudar​

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Estado mamador

Por Sérgio da Costa Ramos

17/02/2018 - 01h48

O que mais existe neste Brasil varonil é Estado falido, atrasando salários e alimentando um imenso rombo previdenciário. E, no entanto, nenhum político vivo prega a diminuição do Estado ou a sua reorganização fiscal. Nada de cortar despesas, compactar os cargos comissionados, racionalizar a administração, acabar com as despesas que sustentam uma “clientela” de votos. “Um governo – qualquer um – é como um bebê de colo, chorando pra mamar." A “comparação”, impressionante pela sinceridade, foi produzida por um falecido ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, que usava um imenso “chuca” de bebezão, à guisa de topete. Para conter um déficit e uma inflação galopantes em 1981, Reagan elevou os juros americanos a 21% ao ano, quebrando emergentes como México e Brasil. No início do século 21, os 27 Estados brasileiros renegociaram suas dívidas com a União, num negócio de pai para filho -  6% de juros ao ano e 30 anos para pagar em módicas prestações, num percentual variável entre 8 e 13% das receitas estaduais. Apesar desse “alívio”, os Estados estão falidos de novo e lançam olhares compridos para o caixa da União. Esganado, o governo federal não quer partilhar impostos, nem renegociar o bolo. A solução será mamar na teta cansada do contribuinte, obrigando-o a trabalhar mais e a fornecer “mais leite”. Nenhum governo estadual fez ajuste fiscal contendo despesas. Todos alcançaram algum”equilíbrio” aumentando impostos. Quem paga, sempre, é o palhaço do contribuinte. Com a carga tributária cada vez mais próxima dos 40% do PIB, cada brasileiro já se conforma em trabalhar pro governo durante cinco meses. Se sobrar, o contribuinte alimenta os bebês que estão dentro de sua casa, sem deixar de alimentar os impostos indiretos, embutidos em qualquer produto que circule como mercadoria. *** Ao brasileiro de classe média resta “aderir”, digamos, aos Bororós. Índios não pagam imposto, são inimputáveis, não pagam aluguel e ainda são donos de um imenso país recém-demarcado, com o sub-solo inchado de ouro e petróleo. Quando é que nós, os “paisanos” da classe média, teremos uma Funai para nos proteger do Estado-inventor de impostos? Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos Veja também: Depende do nome Muda para não mudar

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Depende do nome

Por Sérgio da Costa Ramos

16/02/2018 - 09h53

Interessante: por que esses ancoradouros conhecidos como trapiches, antes tão bem retratados pelo pintor Eduardo Dias - e bem fincados nas duas baías - foram aos poucos perdendo as pernas e as muletas? De repente, esses apêndices que a aventura humana plantava nas calmarias das beiras do mar, deixaram simplesmente de existir nesta Ilha quase órfã de navegadores e de marinas. Até o único trapiche da Beira-Mar experimentou verdadeira novela para ser reconstruído. Aliás, construir qualquer trapiche na Ilha é case de desafio ambiental. Parece que esse equipamento sofre de defeitos congênitos, aleijões que transformam os monstrinhos em desajeitadas aves  pernaltas ou filhos do dragão do Lago Ness com alguma girafa anfíbia. A falta do hábito faz os trapiches tortos. Um trapiche nada mais é do que uma pequena extensão da terra firme, uma tosca escada postiça, um “suporte” para que o homem cumpra o seu destino de navegar. Destino que uma exagerada ecoteocracia pretende negar ao ilhéu comum. Imagine-se a Ilha de Capri ou a de Ischia - ao largo de Nápoles, no Mar Tirreno - de repente despidas dos seus trapiches. Seriam naves desgarradas, cemitérios de desterrados. Não há ninguém que explique – ou que entenda – essa bizarra idiossincrasia que pretende negar as estradas do mar aos habitantes desta que é uma das mais belas ilhas do mundo. Pior: não há quem explique a estranha omissão e o apático conformismo das autoridades em “não trabalhar” com a alternativa marítima. Implantar terminais e organizar linhas do transporte coletivo de massa nos mares e baías que banham a Ilha seriam metas naturais de administrações responsáveis. *** Homem de bom senso, que não desconhecia as artes do pragmatismo, mas conhecia as idiossincrasias de empedernidos do gênero  Coreia do Norte, o ex-prefeito Sérgio Grando era um entusiasta de marinas na Ilha, desde que concebidas com o devido respeito ambiental. Depois de ter conhecido as de Miami, onde esteve para um sea trade, o então prefeito pedia: – Chamem de trapiche. Se chamar de marina, a turma não deixa fazer. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Muda para não mudar

Por Sérgio da Costa Ramos

15/02/2018 - 12h31

Não há regras mais volúveis do que as da Justiça Eleitoral para as eleições brasileiras. Tudo é mutável, menos a origem sempre obscura do dinheiro para financiar campanhas. Agora, estão autorizando o autofinanciamento. Com a proibição das doações empresariais, permitirão que cada candidato se endivide para financiar sua campanha com empréstimos individuais. Até R$ 2,5 milhões para um mandato de deputado federal. E até R$ 1 milhão para deputado estadual. Adivinhem quem serão os avalistas. Não resta dúvida que serão os “sujeitos ocultos”. Empresas. Que tentarão “buscar” o retorno depois da eleição do seu “avalizado”. O novo fundo dos partidos – dispondo da bagatela de R$ 1,7 bilhão – será dirigido ao financiamento dos partidos maiores, dentro de um fragmentado quadro de mais de 35 partidos. Verdadeira Babel. Com esse recurso público, os partidos apostarão nos atuais detentores de mandatos, “mais conhecidos” e “por isso, mais baratos de eleger”. Como resultado, os analistas já preveem uma baixíssima renovação no Congresso, no máximo de uns 30%. A nova regulamentação do TSE para as eleições de outubro privilegia os caciques e favorece a reeleição dos atuais parlamentares. Má notícia. Que deveria ligar imediatamente o “alerta” dos eleitores, se estes ainda desejam cumprir pelo menos 50% daquela meta ideal, baseada no “não reeleja ninguém” ou “desempregue um político”. Renovar o Congresso já está parecendo uma verdadeira missão impossível. Os partidos, contudo, continuam achando que a viúva é uma “reserva” eleitoral, cujo cofre é interminável. Ela não deixa de ser considerada “a proprietária do dinheiro público”, pública mulher muito assediada mesmo nesses tempos de Lava-Jato. É a viúva sempre cortejada, ainda que o momento seja de crise e de vigília. Sabendo que no Brasil a impunidade é um direito muito humano, os arrecadadores de campanha não desistem de acariciar o cangote da viúva, sequiosos por sugar-lhe a carótida – e sentir o inebriante perfume de mulher. *** A Viúva é mulher quase ubíqua e oblíqua, que os políticos cortejam de esguelha, pois nesses tempos bicudos já não convém dar muito na vista – logo agora que a Opinião Pública - essa outra mulher tão desejada -  anda de olho nos movimentos da “mão boba”. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Carná sem praça

Por Sérgio da Costa Ramos

14/02/2018 - 09h46

O que dizer de um Carnaval que “fechou” a Praça XV, envolta em tapumes, por claudicante “decisão” do poder público, incapaz de garantir um mínimo de segurança? Todos os carnavais de Floripa terminavam no coração da figueira. Ali se encontravam, nas quartas-feiras de cinzas, as orquestras do Lira e do Doze, cordiais concorrentes, as famílias abençoadas pelo fícus indianus e irmanadas pelo samba, o petit-pavê da praça transformado em salão de baile. Enquanto rolava sob a figueira essa fraterna “consagração” do Carnaval, nas calçadas que margeiam a praça subiam, contritas, as Filhas de Maria ao encontro das cinzas purificadoras da Missa das Seis, conduzida pelo padre Bianchini ou pelo monsenhor Frederico Hoboldt. E a Quarta de Cinzas falecia ao meio-dia, remida, com a absolvição de todos. Hoje, fechada, a praça se tornou uma espécie de limbo em homenagem à inércia e à incompetência. Já imaginaram se a moda pega? O comércio, os bancos, as escolas, os espaços públicos - como museus e praças - todos fechados “por motivo de segurança”, ou por de falta de? Voltaríamos ao tempo em que a própria Praça XV se “elitizou”, nos primórdios do século 20. Gradis importados de Birmingham, Inglaterra, cercavam o território e um funcionário municipal “abria” e “fechava” os portões da praça. Cenário de capitais europeias, o “expediente” compreendido entre as nove da manhã e da noite, os habitués avisados pelo sino que se pendurava no pescoço de uma grande árvore. Ainda não era a figueira, fícus de 1906, hoje uma “jovem senhora” de 112 anos. Caberia ao prefeito Henrique Rupp Júnior, no início dos anos 1920, a boa ideia de “deselitizar” a praça e devolvê-la ao povo – sem muros ou gradis, estes doados às igrejas do Rosário e de São Francisco. *** Já imaginaram a bela  Place des Vosges fechada pela prefeitura de Paris por causa de andarilhos e vagabundos?  A Trafalgar Square, em Londres, dominada por gangues de desclassificados? A Washington Square, em Nova York, controlada por bandidos do baixo mundo? Que tal, pra começo de conversa, reforçar a Guarda Municipal na área e chamar a PM para uma varredura restauradora nos jardins onde Floripa opera a sua própria fotossíntese? Afinal, já dizia o poeta Castro Alves: “A praça é do povo como o céu é do condor”. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Mascarados conhecidos

Por Sérgio da Costa Ramos

13/02/2018 - 09h45

"Do que se fantasiam os desterrenses?”, perguntou o jornal “O Argos”, em 1884, no tempo em que o Carnaval engatinhava com o nome de “entrudo” . E informou: – A gente fina dessas sociedades se fantasia de conde, príncipe e duque -  todas as figuras da nobreza – e também de mouros, pierrots e dominós. Para tanto, faziam fantasias de seda, de veludo e de outros tecidos pesados e caros, enfeitando-as com lantejoulas, vidrilhos e outros adornos. “Proliferavam cabeleiras, pretas ou brancas, lisas ou cacheadas. Bigodes e barbas postiços – e até calvas, igualmente falsas. Na rua da Constituição, nº 4 (a atual Felipe Schmidt), o barbeiro João Machado Coelho tinha esses 'adereços' à venda. Anunciavam-se chapéus, uniformes, dragonas e quepes (a fantasia de militar era permitida), cartolas e smokings. Mais modelos de mouros, cavaleiros e beduínos. A fantasia de dominó era a mais popular e a mais barata, sendo apenas uma longa batina, enfeitada”. Quanto aos pobres, eles saíam de sujo. Não tendo dinheiro para uma fantasia, arrumavam uma roupa qualquer. Vestiam-na do avesso, pintavam a cara ou arranjavam alguma máscara velha. *** O Carná era todo regrado. E ai de quem contrariasse a rigidez da “lei”. Uma certa Sociedade Carnaval Desterrense exagerou, no ano de 1861, como nos conta o historiador de “Nossa Senhora do Desterro –Memória e Notícia”, Oswaldo Cabral: "Tantas foram as regras que até os mascarados acabaram identificados nas ruas – mesmo os encapuzados!" Nas noites de bailes, as regras eram rígidas, como a do artigo 8: – No baile noturno haverá um sócio “reconhecedor”, a quem os senhores sócios que forem mascarados serão obrigados a se apresentar; com o fim de reconhecimento de identidade. Então, eles receberão um cartão de entrada para apresentá-lo ao porteiro, o qual lhe entregará uma senha, no caso de desejarem sair do recinto para alguma necessidade premente. Para o cúmulo da  bizarrice, a mesma Sociedade pedia que os mascarados “não fossem identificados pelos foliões nas ruas”, em razão de “algum tique, hábito ou vício”. E que não tivessem seus nomes apontados ou proferidos “em voz alta”. E se explicava: - Não deixa de ser ridículo um mascarado que todo mundo sabe quem é. O folguedo perderia instantaneamente “a sua graça”. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Medidor de felicidade

Por Sérgio da Costa Ramos

12/02/2018 - 09h44

Qual a química cerebral e cordial que transforma o brasileiro no ser mais alegre do planeta pelo “encantamento” carnavalesco? Os apressados adeptos da amargura e do preconceito de mais baixa extração logo respondem que é uma espécie de alienação. Não seriam alienados aqueles destituídos de renda, que vivem num país imerso em eterna crise econômica, política e moral – e, ainda assim, saem de casa para sambar e extravasar uma alegria que se formou apenas no seu hipotálamo? O mundo está debruçado sobre este mistério: como se motiva o brasileiro pobre para curtir o Carnaval e descobrir uma coleção de alegrias, derramando-as pelo chão de confetes e serpentinas? É assunto sério, que acaba de virar capa de revistas sérias, investigando esse espasmo de júbilo e de espírito lúdico que se espalham pelo assoalho das praças e das avenidas. Se existisse um termômetro capaz de medir a felicidade dos países, a quantos graus andaria a felicidade do Brasil? Infelizmente a felicidade brasileira tende a se alinhar na segunda página dos cem países mais estáveis e civilizados do mundo. Um certo instituto chamado Population Crises International -  que inaugurou um “medidor de felicidade” - situa o Brasil no nível 50 entre cem países, lançando um olhar sobre os vários indicadores de IDH, ou Índice de Desenvolvimento Humano, tendo por parâmetro um verdadeiro coquetel: analfabetismo, escolaridade, qualidade de ensino, saúde, nível de emprego, crescimento demográfico e – o nosso calcanhar de Aquiles: índice de homicídios por grupo de cem mil habitantes. Aqui, naufragamos... Devemos ao heroico povo brasileiro a circunstância de sermos, segundo os parâmetros estudados, o “mais feliz entre os infelizes”. Não é à toa que saxões e europeus em geral se deslumbram com a “oie de vivre ainda existente sobre todas as mazelas que nos afligem aqui abaixo do Equador. Que outro país sobreviveria a uma classe política tão alienada e ególatra? Que outro país demonstraria tamanho inconformismo matizado de humor, para rir de seus próprios estigmas? *** A felicidade de um povo passa, é claro, por eleições bem conduzidas e escolhas bem feitas. Só haverá solidariedade numa comunhão de homens quando todos os que têm pensarem também nos destituídos. Ou quando a miséria do mais pobre a todos encher de vergonha. Sem esta felicidade, não haverá lugar para outras. Leia outras crônicas de Sérgio da Costa Ramos

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Sérgio da Costa Ramos

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da Costa Ramos

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Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

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